15 ideias da ciência que devem morrer

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Texto reproduzido do site da Revista Galileu.

A Fundação Edge, uma associação que reúne intelectuais da ciência e da tecnologia, convidou 175 especialistas para responder a uma pergunta difícil: qual ideia científica está bloqueando o progresso da humanidade? As respostas, divulgadas ao longo de 2014, agora foram compiladas no livro This Idea Must Die (“Esta ideia deve morrer”, em tradução livre).

1. A TEORIA DE TUDO

QUEM MATOU: Geoffrey West, físico, Instituto Santa Fé.

Calma, não é o filme sobre a vida de Stephen Hawking que Geoffrey West quer tirar de circulação. Um dos maiores desafios da ciência é a busca por uma teoria que explique todas as partículas elementares e suas interações. Tudo obedeceria a uma única equação (ou a um único conjunto de equações). West admite que a ideia trouxe avanços importantes, mas acha que é hora de partir para outra: “É uma busca notável e ambiciosa, que levou a descobertas importantes como o bóson de Higgs e os buracos negros. Mas uma teoria de ‘tudo’, onde existem cérebros e consciências, cidades e corporações, amor e ódio? Dificilmente”.

2. O UNIVERSO

QUEM MATOU: Seth Lloyd, professor de engenharia quântica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Vamos enfatizar esse “o” para que ninguém surte. Lloyd defende que, na realidade, existem vários universos – ou um multiverso –, cada um com suas próprias e diferentes leis da física e noções de tempo. Isso porque a cosmologia identificou uma época (bem anterior ao Big Bang) chamada inflação, em que o universo dobrou de tamanho milhares de vezes em uma fração de segundo, criando inúmeras bolhas. “O nosso próprio universo, infinito como é, não passa de uma bolha nesse grande mar inflacionado”, afirma o autor.

3. O INFINITO

QUEM MATOU: Max Tegmark, físico e especialista em cosmologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Embora praticamente todas as teorias e leis da física sejam baseadas na ideia de que algo possa ser infinito, essa seria apenas uma aproximação conveniente. Segundo o autor, não existe evidência de que exista algo infinitamente pequeno ou grande. “Não precisamos do infinito para fazer física. Todas as simulações de computadores, que descrevem com precisão desde a formação das galáxias até a previsão do tempo de amanhã, usam recursos finitos tratando tudo como finito”, conclui Tegmark.

4. PRINCÍPIO DA ENTROPIA

QUEM MATOU: Bruce Parker, oceanógrafo, professor do Instituto de Tecnologia Stevens.

A segunda lei da termodinâmica afirma que, em um sistema fechado, a entropia – medida do grau de agitação ou desordem das partículas – aumenta com o tempo. Na opinião de Parker, é uma conclusão generalizada. Se aplicada ao universo, é ainda mais inapropriada: “Ao dizer que no futuro outras transformações na energia não vão mais ocorrer, a teoria sugere que o universo deve ter começo e fim”.

5. MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIA

QUEM MATOU: Gary Klein, psicólogo, autor de Seeing What Others Don’t.

Os defensores da ideia acreditam que o melhor caminho sempre é confiar nas práticas clínicas validadas por estudos rigorosos para evitar o uso de tratamentos que possam oferecer risco aos pacientes. Mas Klein acha que ela impede o avanço científico porque médicos podem tornar-se relutantes em experimentar tratamentos alternativos que ainda não tenham passado por todos os testes.

6. LADO ESQUERDO E DIREITO DO CÉREBRO

QUEM MATOU: Sarah-Jayne Blakemore, professora de neurociência no University College London.

Você já deve ter ouvido a teoria de que as características de uma pessoa dependem do lado do cérebro mais utilizado por ela. Talvez você tenha até feito testes na internet para descobrir o seu perfil. Tudo perda de tempo. “O cérebro de fato é dividido em dois hemisférios, e um deles começa a agir antes do outro, porém em quase todas as situações ambos trabalham juntos”, diz Blakemore.

7. DESVIO PADRÃO

QUEM MATOU: Nassim Nicholas Taleb, professor de engenharia na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade Nova York.

O desvio padrão é a medida mais comum da dispersão estatística, que mostra a variação existente em relação à média. Mas, segundo o autor, o desvio médio absoluto – outra medida da estatística para calcular a variação de um elemento em relação à média – corresponde mais à realidade, e deveria ser adotado em seu lugar. “Não há razão científica para usar o desvio padrão na era do computador”, afirma Taleb.

8. ALTRUÍSMO

QUEM MATOU: Tor Nørretranders, autor de O homem generoso: por que ajudar os outros é a coisa mais sexy que você pode fazer.

O conceito de altruísmo parte do pressuposto de que humanos são egoístas e serviria para explicar as situações em que você faz algo para os outros sem pensar em si. Mas a verdade é que você sempre está pensando em si, segundo o autor. Humanos estão profundamente ligados aos outros, e é impossível ser feliz se todos estiverem tristes. Ser gentil com os outros nada mais é que ser bom com você.

9. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

QUEM MATOU: Roger Schank, teórico da inteligência artificial, autor de Ensinando as mentes.

A ideia de que um dia construiremos máquinas que são como pessoas cativou o imaginário popular por um longo tempo, mas tal robô nunca vai aparecer. “Não que a inteligência artificial tenha falhado, é só que esse nunca foi o objetivo dela”, diz Schank. Para o estudioso, um computador pode ser programado para rir ou chorar, porém não irá de fato sentir algo, pensar por conta própria ou melhorar gradualmente por causa da interação com outras pessoas. “A área deve ser renomeada para ‘tentativa de programar computadores para fazer coisas muito legais’”, afirma ele.

10. MAIS CÉREBRO, MAIS INTELIGÊNCIA

QUEM MATOU: Nicholas Humphrey, psicólogo, Darwin College, Cambridge.

A conexão parece óbvia: quanto maior o cérebro de um animal, mais inteligente ele é. Só que não é assim que funciona. “Sabemos que humanos podem nascer com dois terços do volume normal do cérebro e não apresentar quase nenhum defeito cognitivo”, diz Humphrey. Por que, então, continuamos com um cérebro grande? Segundo ele, é para ter tecido de sobra para entrar em ação em caso de acidentes.

11. CAUSA E EFEITO

QUEM MATOU: W. Daniel Hillis, cientista da computação, vice-presidente da Applied Minds.

Os homens gostam de organizar os eventos em uma cadeia de causas e efeitos que esclareceria as consequências de cada ação. Segundo Hillis, a ideia falha quando tentamos explicar sistemas dinâmicos de um organismo vivo, as transações da economia ou o funcionamento da mente humana. “Um gene não ‘causa’ câncer, o mercado de ações não subiu ‘porque’ o de crédito caiu”, diz ele.

12. LIVRE-ARBÍTRIO

QUEM MATOU: Jerry Coyne, professor do departamento de ecologia e evolução na Universidade de Chicago.

“Escolhas são, por princípio, previsíveis pelas leis da física”, afirma Coyne. Experimentos mostram que a consciência de ter decidido algo é posterior à tomada de decisão. Você pode até argumentar que ninguém coloca uma arma na sua cabeça e ordena “compre sorvete de morango, não de baunilha”, mas, para o autor, os próprios sinais elétricos em nosso cérebro seriam as armas.

13. QUOCIENTE DE INTELIGÊNCIA

QUEM MATOU: Scott Atran, antropólogo do Centro de Pesquisa Científica de Paris.

“Não existe razão para acreditar que a medida de um quociente de inteligência de alguma forma reflita a capacidade de cognição da mente humana”, diz o antropólogo. Segundo ele, nada no mundo animal sugere a existência de uma seleção natural para a capacidade de realizar tarefas em geral. “O QI é só uma medida geral de raciocínio e categorização socialmente aceita”, reforça. Ou seja, varia de acordo com o que é mais valorizado em cada sociedade, e, se serve para alguma coisa, é para mostrar as diferenças socioculturais no mundo.

14. TRISTEZA É RUIM, FELICIDADE É BOA

QUEM MATOU: June Gruber, professora da Universidade do Colorado.

“Tristeza não tem fim, felicidade sim” – e isso pode ser bom para você. “Existem muitos trabalhos científicos que sugerem que emoções ruins são essenciais para nosso bem-estar psicológico”, defende June Gruber. Do ponto de vista evolutivo, a tristeza nos faz ficar atentos a problemas ou situações perigosas. Também ajuda a melhorar o foco e facilita uma visão analítica, enquanto felicidade demais nos torna egoístas e propensos a situações de risco. Mas ela não defende o fim da felicidade: o contexto de cada emoção é importante, e saber respeitá-las, em vez de suprimi-las, é a chave para o bem-estar psicológico.

15. PRECONCEITO É SEMPRE RUIM

QUEM MATOU: Tom Griffiths, professor de psicologia na Universidade da Califórnia.

A clássica brincadeira do telefone sem fio ou situações em que uma pessoa enxerga imagens de forma diferente da realidade (não estamos falando do vestido branco e dourado que na verdade era azul e preto): isso tudo pode ser explicado pela existência de uma visão predeterminada. “Em problemas indutivos, em que a resposta certa não pode ser identificada só com base nas evidências disponíveis, como interpretar a própria linguagem, ter um viés é fundamental”, explica o professor Griffiths. Ter predisposição para uma resposta seria a forma de sobreviver nesse jogo de acerto e erro. Mas o fato de o viés não ser sempre ruim também não significa que seja sempre bom – o ideal é buscar ser o mais objetivo possível.

AQUI JAZ: Quatro ideias que foram mortas e enterradas para não frear o avanço da ciência

GEOCENTRISMO

A teoria de que a Terra seria o centro do universo persistiu por 1400 anos. O matemático polonês Nicolau Copérnico foi o primeiro a apresentar um modelo consistente e completo de um sistema heliocêntrico, que mais tarde foi aperfeiçoado por outros cientistas.

EUGENIA
Criada em 1883, a teoria defendia a eliminação de pessoas com deficiência, má-formação ou portadoras de determinadas doenças sob o pretexto de melhorar a genética da população em geral. O exemplo mais extremo foi o praticado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

ÁTOMO INDIVISÍVEL
O próprio nome vem do grego a (“não”) + tomo (“divisão”), e a crença em uma partícula indivisível teria surgido no século 4 a.C. Mas foi só no final do século 18 que o físico britânico Joseph Thomson descobriu o elétron, enterrando de vez a ideia de que o átomo seria uma bola maciça.

LAMARCKISMO
A teoria ficou famosa no início do século 19 e propunha que o ambiente provocava mudanças no comportamento e até na anatomia dos seres humanos, e que essas mudanças seriam hereditárias. Para Lamarck, órgãos pouco usados tendiam a atrofiar, enquanto os mais usados tendiam a se desenvolver.

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