Deveríamos queimar o rabo do Tio Sam?

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Charles Bukoswki escreveu esse texto em 1970, falando sobre as revoluções sociais e rumores de guerras que estavam ocorrendo à época. Leiam e pensem se o assunto não se mantém atual com os recentes conflitos internacionais e também com o período eleitoral brasileiro:

“Deveríamos queimar o rabo do Tio Sam?

Ou ele queimará os nossos? Terei 50 em agosto, portanto não confie em mim. São 20 anos mais 30, e eu me pergunto em quem os garotos com menos de 30 vão confiar quando tiverem mais de 30? Mas talvez você deva confiar em mim um pouquinho – estou desempregado, chego a ter até um cavanhaque ralo, bebo todas as noites até o amanhecer, escrevo meus poeminhas e meus contos sujos, ainda em busca do alvo, talvez errando, levantando ao meio-dia em busca de um antiácido, topando com aquarelas cobrindo o chão junto com garrafas de cerveja vazias e o Programa de Corridas da semana passada. Berkeley Tribe me manda uma cópia de seu jornal todas as semanas, então devem saber que estou aqui. Além do mais, bebo com todo mundo e os escuto. Minha porta está aberta tanto para a Esquerda quanto para a Direita, para brancos e negros e amarelos e vermelhos e homens e mulheres e sapatões e homos variados. Não fico palestrando; eu aprendo. Eu era contra a guerra quando ser a favor era moda. Acreditava que deveríamos ter permanecido fora da Segunda Guerra Mundial e o curso da história se revelaria semelhante ao que temos agora.

Esta é uma declaração forte e, claro, pode ser discutida. Continuo sendo contra a guerra. Independente de a guerra ser contra a Esquerda ou a Direita, para mim nunca deixa de ser uma guerra. Entre os intelectuais americanos uma guerra “boa” é aquela travada contra a Direita; uma guerra “ruim”, contra a Esquerda. Isso é fácil demais. A lição é não se deixar iludir. Se vocês estão dispostos a sacrificar vidas humanas por uma Causa, sigam em frente. Troquem a constituição por uma nova ou façam a antiga funcionar. Digam: “Nós morremos. Agora é isso que queremos”. No momento em que um inimigo é removido em uma guerra, isto cria um vazio o de desequilíbrio e um novo inimigo se forma. Se você destrói a Esquerda, a tendência é que você se torne a Esquerda; se você destrói a Direita, a tendência é que se torne a Direita. Tudo não passa de mercúrio, de uma gangorra, e grandes homens se deixaram enganar e aprisionar pelas mudanças no equilíbrio.

Políticas, guerras, causas – por milhares de anos acabamos transformados em sacos de merda. Já é hora de aprendermos a pensar. Ainda nos anos 30, e caminhando direto para a Segunda Guerra Mundial, havia um forte sentimento revolucionário neste país. Franco estava prestes a dominar a Espanha – escritores foram fisgados pela “nobre causa” – Hemingway, Koestler, que se converteu mais tarde – de fato, Darkness at Noon foi um dos primeiros sinais de conversão. Depois houve também Lillian Hellman; Irwin Shaw, o queridinho dos intelectuais e o chuchu da New Yorker – vejam o conto “Sailor Off the Bremen” …e, claro, havia Steinbeck e Dos Passos – que se converteram depois. Mesmo William Saroyan, que disse que nunca iria à guerra, acabou enquadrado, foi, e escreveu um péssimo romance sobre isso – The Adventures of Wesley Jackson . Houve dúzias, centenas de outros. V ocê nem poderia ser considerado um escritor se não fosse a favor da guerra. E, claro, antes da guerra havia uma depressão. As pessoas, tanto jovens quanto velhas, costumavam se encontrar em garagens escuras e conversar sobre revolução. Formou-se A Brigada Abraham Lincoln para ir à Espanha deter “a escalada do fascismo. Parem-na agora!”. Bem, a Brigada estava pobremente armada e eles gritavam às multidões: “Junte-se ao Partido! Junte-se à Brigada! Precisamos detê-los agora! Nossas vidas estão em jogo!”. Em São Francisco acontecia o mesmo. Os bailes do Partido Comunista eram bem frequentados. Nenhum homem poderia ficar de fora, eles diziam. Qualquer homem que não estivesse minimamente envolvido nem poderia ser considerado parte sensível e pensante da espécie humana. Tempos empolgantes para alguns. Mas onde foram parar? O que houve com a Esquerda depois que Hitler foi derrotado? O que aconteceu com Irwin Shaw, Hemingway, Dos Passos, Steinbeck, Saroyan, a galera toda? Bem, houve aquele romance estúpido do Steinbeck, The Moon is Down, e aquele romance estúpido de Hemingway, Além do rio e entre as árvores , e não faço a menor ideia se essas coisas foram escritas depois, durante ou um pouco antes da guerra – fazem parte do processo. Dos Passos desistiu. Os outros descobriram que já não podiam escrever. Camus passou a fazer o circuito de palestras nas Academias até que um acidente de carro o salvou desse tipo de vida.

Meu ponto é que já ouvi gritaria similar a essa que agora toma as ruas antes, e tudo isso não deu em nada. Houve traições e viradas em abundância. As pessoas tinham comida em suas barrigas. As pessoas tinham feito dinheiro na guerra. A Rússia aliada passou a ser a Rússia inimiga. Joe Stálin, agora que o mundo tinha sido salvo, dava uma de Hitler com seu povo. Mais uma vez – como sempre – os intelectuais tinham sido enganados. A realidade superou a teoria. A ganância e a mesquinhez humanas se tornaram história. A proclamada bondade do homem revelou-se um belo golpe. Traição. Documentos. Conversa para boi dormir. Irwin Shaw percebeu isso e colocou no papel – seu melhor livro, embora eu já não lembre mais o título. Joe McCarthy fez sua aparição a tempo. As meias sujas de Adolph. Tivemos o assunto exaurido pela indústria cinematográfica. A Direita estava de volta. Mas como? Não tinham sido destruídos na Segunda Guerra? Cada homem era suspeito. “V ocês nunca participaram do Partido Comunista? Não éramos a maioria de nós?” Mas ninguém nunca disse isso. Eles recebiam suas ordens de cima e, como bons meninos, obedeciam. E agora as crianças judias que salvamos dos fornos fazem parte da Direita. Comandam Panzers e guerras- relâmpago e ataques aéreos contra a ESQUERDA. É desconcertante. Agora mais uma vez os intelectuais gritam “Revolução”. Um banco é incendiado. A IBM sofre um atentado, uma companhia telefônica também, e outros lugares…

Policiais são apedrejados; seus carros queimados; policiais são mortos, policiais matam – sempre acontece. Então nós temos os 7 grandes de Chicago e um velho inacreditável, senil, como juiz. Se

Kunstler não tivesse avisado a rapaziada para parar num discurso recente, aquilo poderia ter acontecido. Mas Kunstler sabia que poderia ter ocorrido um massacre e que a Revolução teria terminado ali mesmo. Garantiu a eles mais um dia.

Bem, vocês podem se perguntar, qual é o meu PROPÓSITO? Bem, sou um fotógrafo da vida, não um ativista. Mas antes de se decidir por uma Revolução tenham certeza de que vocês têm uma boa chance de vencer – com isso, me refiro a uma vitória pela violência. Antes de isso acontecer vocês precisam promover alguma revolução dentro dos ranques da Guarda Nacional e da força policial. Isto não acontecerá em nenhum grau. Então é preciso fazer isso através dos votos. E suas chances são dizimadas pela presença dos dois Kennedy. A essa altura já há muitas pessoas temendo por seus empregos, há muitas pessoas comprando carros, aparelhos de tevê, casas, créditos estudantis. Crédito e propriedade e um trabalho de oito horas são grandes amigos do Establishment. Se vocês precisam comprar coisas, usem apenas dinheiro, e só comprem aquilo que tenha real valor – nada de bugigangas ou engenhocas. Tudo o que vocês possuem deve caber dentro de uma mala; só então suas mentes poderão estar livres. E antes que vocês enfrentem as tropas nas ruas, DECIDAM e SAIBAM o que estão fazendo, quem colocarão no lugar dos que aí estão e por quê. Slogans românticos não farão o serviço. Tenham um programa definido, com palavras claras, pois se vocês VENCEREM terão uma forma de governar decente e adequada.

Pois tenham em mente que em todos os movimentos há oportunistas, gente ávida de poder, lobos sob vestes Revolucionárias. São esses os homens que derrubam uma Causa. Estou do lado dos que querem um mundo melhor, para minha filha, para mim mesmo, para vocês, mas é preciso ter cuidado. Uma mudança no poder não significa uma cura. Entregar o poder às pessoas não é uma cura. O poder não é uma cura. O grande esforço de suas mentes não deve ser como destruir um governo, mas sim como criar um governo melhor. Não sejam mais uma vez enganados e aprisionados. E se vocês vencerem, tenham cuidado com um governo que seja mais Autoritário e que acabe por deixá- los numa situação mais opressiva do que a anterior. Não sou exatamente um patriota, mas apesar de todas as enormes e fodidas injustiças ainda se pode expressar uma opinião e protestar e agir num amplo espectro social. Digam-me, poderia eu escrever um texto contra o governo DEPOIS que vocês assumirem? Poderia ficar nas ruas e parques e dizer a vocês o que eu penso? Espero que sim. Mas sejam cuidadosos se for para perdermos esse direito em nome da Justiça. Peço que me apresentem seu programa para que possa escolher entre o de vocês e o deles, entre a Revolução e o governo existente. Será que não me colocarão para cortar cana? Isso me deixaria bastante chateado. Por acaso construirão novas fábricas? Passei minha vida inteira fugindo de fábricas. Teriam meus escritos, minha música, minhas pinturas que levar em conta o bem-estar do Estado? Deixariam que eu ficasse largado em parques e cubículos bebendo vinho, sonhando, me sentindo bem e tranquilo?

Deixem-me saber o que têm reservado para mim antes que eu saia por aí queimando bancos. Preciso de mais do que colares hippies, uma barba, um turbante indiano, maconha legalizada. Qual é o seu programa? Estou cansado de todos os mortos. Não vamos desperdiçá-los mais uma vez. Se é para enfrentar a baioneta das Tropas Estaduais, digam-me o que vou ganhar para isso.

Digam-me.”

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