Com a mão na consciência

maos_dadas

Texto roubado do abandonado site Opera Bufa.

Com a mão na consciência

Psicografado (muito a contragosto) por Henrique Szklo

Um proeminente professor de filosofia nos idos de 1930 em Antuérpia, colecionava uma legião imensa de admiradores de sua obra, basicamente voltada para o estudo do contato físico como principal forma de comunicação humana. Em razão de seus estudos, mas, principalmente por acreditar no que dizia, ele possuía um costume que provocava em seu interlocutor uma emoção indescritível. Era um gesto tão marcante que acabou por rodar o mundo e fazer sua fama: quem quer que fosse a pessoa, conhecida, desconhecida, famosa ou anônima, ao cumprimentá-lo recebia um prolongado, firme e afetuoso aperto de mão. Quem experimentava dizia que era uma experiência quase transcendental. Aquele aperto de mão era um elixir de energias positivas. Pessoas faziam fila para cumprimentá-lo e sentir aquela força extraordinária que emanava de sua palma. Seu olhar terno e um leve sorriso enigmático eram como adicionais de simpatia que ele fazia questão de oferecer a seus interlocutores.

Os anos foram passando e milhares de pessoas foram ungidas com o calor do toque daquela mão maravilhosa. Até que um dia, o professor adoeceu e caiu de cama. Filas eram formadas à porta de seu quarto para receber, talvez o último e definitivo cumprimento. E, mesmo morrendo, ele não se furtava a cumprimentar longamente cada um de seus visitantes.

Quando sua situação ficou crítica e os médicos disseram que não passaria daquela noite, ele chamou seus principais assessores e seguidores e disse que faria uma grande revelação. Um segredo que ele havia guardado por toda a sua vida. O mundo parou para ouvir o que aquele santo homem tinha a dizer. Até a BBC instalou um microfone para transmitir ao vivo para todo o planeta.

Estavam todos ali em seu quarto. E cada um recebeu o derradeiro aperto de mão do grande homem. Foi quando ele, com a voz já enfraquecida pela doença, finalmente disse: “Meus queridos amigos, gostaria de dizer que nunca, jamais em toda a minha vida, nem por uma vez sequer, lavei a mão após ir ao banheiro”, deu um sorriso e expirou.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s