O conselheiro come

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Três textos do excelente João Ubaldo Ribeiro, sobre os frequentes pedidos que recebe para trabalhar sem remuneração:

I

Quando eu era estudante em Salvador, tinha sempre um colega ou professor especialista em histórias sobre Ruy Barbosa, a maior parte delas com certeza inventada. Não pode ser verdadeira, por exemplo, a anedota segundo a qual ele chegou a Londres e publicou um anúncio no Times: “Ensina-se inglês aos ingleses”. Também não boto muita fé em que ele se distraía arrolando dezenas de sinônimos para “chicote” ou “prostituta”, embora até hoje existam muitos conterrâneos meus que se aborrecem com quem desmente essas e outras alegações.

Mas há histórias sobre ele em que acredito. Uma delas, aliás, nem o tem como protagonista, mas, sim, sua mulher. Dizem que, procurado para dar um parecer ou realizar um trabalho qualquer, Ruy Barbosa, como acontece com muitos intelectuais, não costumava puxar o assunto do pagamento. E contam que, depois de ver o marido explorado com freqüência, a mulher dele chamava o visitante para uma conversinha, na saída. Perguntava se tinham acertado alguma remuneração e, como a resposta era quase sempre negativa, ela, delicadamente, pedia ao visitante que voltasse e combinasse um pagamento.

– O conselheiro come… – explicava ela.

Pois é, o conselheiro comia. E eu, apesar de não ser nem conselheiro nem Águia de Haia, também como. Mas creio que há muita gente que acha que escritores, de modo geral, não comem, nem precisam de dinheiro para nada. Como tudo mais, deve ser culpa da imprensa, que costuma falar em escritores de best-sellers internacionais, os quais ganham dois milhões de dólares por mês, papam nove entre cada dez estrelas de cinema e têm vastas coleções de carros e relógios de luxo. A verdade, ai de nós, é que a maior parte dos escritores, não só aqui como no mundo todo, tem que se virar de várias formas para conseguir viver modestamente.

Acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática. As pessoas esperam que o escritor trabalhe de graça o tempo todo e ficam grandemente ofendidas quando ele se recusa. Há poucos dias, um grupo de estudantes universitários passou para mim a tarefa que lhes tinha sido incumbida pelo seu professor de literatura brasileira e, como eu não concordei em fazer o trabalho por eles, ficaram aborrecidíssimos e só faltaram xingar toda a minha árvore genealógica. Para não falar que, mesmo que eu quisesse fazer o trabalho, não saberia responder a perguntas do tipo “como caracterizar sua inserção no contexto da literatura brasileira pós-moderna”.

As encomendas de trabalhos escolares aparecem mais ou menos a cada mês. Já originais de livros para meu exame chegam todos os dias. A impressão que tenho é que a maior parte dos autores deseja que eu largue tudo o que estiver fazendo, leia sofregamente os originais, adore tudo, escreva um prefácio arrebatado e edite o livro – após o que ele passará a ganhar dois milhões de dólares por mês, a papar nove em cada dez estrelas de cinema e, enfim, viver essa vidinha de escritor. E, na verdade, a pessoa não quer uma opinião sincera, como sempre alega. Quer, o que, aliás, é natural, receber a confirmação de seu talento. Mas, se eu fosse ler todos os originais que me surgem, não faria outra coisa na vida. Além disso, tenho muito pudor de dar opinião sobre o trabalho alheio, não me acho qualificado. E fico sem graça e me sentindo culpado porque não posso ler os originais. Não é justo, pois não posso mesmo, mas é o que acontece.

Entrevista é outro trabalho de lascar. Parece-me que a entrevista devia ser destinada a obter informações que ainda não tenham sido tornadas públicas. Por exemplo, todo mundo que já ouviu falar de mim sabe que eu sou baiano e moro no Rio. Contudo, a esmagadora maioria dos entrevistadores começa perguntando onde nasci e se ainda moro em Itaparica. Uma repórter iniciou sua entrevista perguntando se eu era escritor. As perguntas são invariavelmente as mesmas e podiam ser respondidas com uma olhada nos arquivos do jornal ou revista, mas eu tenho de dar a entrevista e, novamente, trabalhar de graça. Não agüento mais contar que livros publiquei, que gosto de escrever de manhã, que aprendi inglês quando era menino, que nasci em Itaparica e passei a infância em Sergipe etc. etc. etc.

No caso da televisão costuma ser pior. Todo mundo que trabalha em televisão, aqui neste país onde ela é das coisas mais importantes que existem, se acha o máximo porque trabalha na televisão. A síndrome de Bozó, do Chico Anysio, assume várias formas. Os seguranças tratam a gente como lixo, devendo dar-se por felicíssima por ter a chance de aparecer na tevê. Para trabalhar de graça, a gente tem de comparecer ao estúdio, identificar-se, botar crachá, ficar esperando e obedecer ordens estranhas, tais como não olhar para a pessoas com quem se está falando, mas para a câmera. Uma vez me fecharam num cubículo durante um tempo interminável e aí, amedrontado, fugi. De vez em quando, alguém fica indignado porque uso óculos e dá reflexo, ou porque sou careca e também dá reflexo, quase me obrigando a pedir desculpas por existir.

O interessante é que, se o camarada é amigo do dono do armazém ou da quitanda, não lhe ocorre pedir para fazer a feira da semana de graça. Afinal, trata-se de um negócio, sobrevive-se daquilo. O escritor e o jornalista também sobrevivem de seu trabalho, mas parece que ninguém acredita nisso. Volta e meia sou levado a crer, pelo jeito imperioso com que freqüentemente me intimam a trabalhar de graça, que acham que recebo um estipêndio do governo para exercer essas funções. Quando, certa feita, aceitei pagamento para escrever e assinar um anúncio, caíram de pau em cima de mim e dos outros que toparam o mesmo serviço, como se tivéssemos vendido nossas santas e puras almas ao diabo. Sei que talvez fizesse muito melhor figura de escritor se vivesse bebum, esmolambado e tomando uns trocados emprestados aqui e ali. Mas, infelizmente, me falta vocação, devo ser um falso escritor, nem milionário nem miserável.

II

No relacionamento com o público, escritores e jornalistas não são como atores ou cantores. Estes sentem de pronto, pelo aplauso ou pela vaia, se agradaram ou não. Aqueles só de vez em quando sabem se o que publicaram foi bem recebido pelos leitores, através de uma eventual carta ou encontro casual. Assim mesmo, quando a reação é negativa, as pessoas geralmente evitam revelá-la diretamente. Aplaudir ou vaiar é mais fácil, porque se trata de um comportamento grupal. Já chegar individualmente ao infeliz escrevinhador e jogar-lhe na cara que o que ele cometeu é ruim fica mais difícil.

Creio, contudo, ser uma exceção, pelo menos parcial, porque tenho críticos severos, alguns deles meus amigos, como o taxista Carlão, exemplar profissional do volante que faz ponto no Jardim Botânico. De modo geral, Carlão gosta do que eu escrevo aqui, mas, de vez em quando, sem muita sutileza, mas amistosamente, opina que “aquela do domingo passado estava meio chata”, ou me diz que eu devia estar com azia, no dia em que escrevi isso ou aquilo. Um senhor esguio e de porte altivo, geralmente demonstrando estar com umas duas talagadas no juízo, de vez em quando me detém, ao nos toparmos na rua, para apertar minha mão e cumprimentar-me vivamente. Em compensação, há dias, embora raros, em que apenas me acena de longe e grita:

-Olha aí, a de hoje estava uma desgraça! Foi você mesmo que escreveu? Olha o nível, atenção!

Rio amarelo, prometo tentar caprichar na próxima. Raciocino que, se o sujeito gasta seu dinheiro para comprar o jornal, tem o direito de criticar a mercadoria. Que é que vou fazer, quem sai na chuva é para se molhar e, afinal, estamos numa democracia e a livre manifestação da opinião é sagrada. Não vou ser hipócrita e dizer que não gosto de elogio e não me chateio com críticas negativas, mas faço um sincero esforço para me comportar com a elegância possível, tanto num caso quanto no outro.

E, quando uma crônica ou artigo dá, digamos assim, ibope, sinto uma espécie de felicidade secreta, entre as cartas de aprovação, faxes (precisamos resolver esse plural de fax, palavra que o Aurélio ainda não registra; já que sou o caçulinha, vou perguntar aos mais velhos, lá na Academia) entusiásticos, aplausos em botecos e outras demonstrações. E os ibopes mais altos muitas vezes são uma surpresa para mim. Foi o que aconteceu com uma crônica (ou artigo, sei lá; vou também perguntar sobre isso na Academia), publicada há uns dois ou três domingos, em que eu, mencionando a preocupação da mulher do conselheiro Ruy Barbosa com que pagassem pelo trabalho de seu marido, comentava como querem que escritores e similares trabalhem de graça, aqui no Brasil.

Meninos, só vocês vendo. Até hoje chegam mensagens de solidariedade e não somente de escritores e jornalistas, mas de todo tipo de profissional, o que parece indicar que há mais sopeiros e folgados entre nós do que suspeitamos à primeira vista. Jorge Amado, ainda hospitalizado, mandou transmitir calorosas felicitações e afirmou que, doravante, vai enviar minha crônica a todo mundo que lhe pedir para trabalhar de graça – ou seja, algumas centenas, ou milhares, de caras-de-pau. O festejado romancista Antônio Torres me telefonou, para, com a voz embargada de entusiasmo condoreiro, fazer um discurso de aprovação. A bela e também festejada escritora Ana Maria Machado fez a mesma coisa. E mais outros, que os neurônios que já não disparam deletaram (não é assim que se diz, hoje em dia?) da minha pobre memória.

Dois médicos, igualmente indignados, me mandaram cartas, contando como são praticamente forçados a dar consultas grátis. Um deles, cardiologista, deu para variar seus horários de calçadão. Andava de manhãzinha, mas a “clientela” aumentou tanto que ele não podia mais andar, pois tinha de parar a cada minuto, para tomar o pulso de um, receitar um vasodilatador para outro e ouvir sem acreditar um sujeito lhe pedir para levar o estetoscópio e o esfigmomanômetro (medidor de pressão arterial; desculpem o palavrão, mas o Aurélio diz que tensiômetro está em desuso) para a praia, a fim de melhor servir a seus pacientes. O outro não atende mais telefone, porque, na quase totalidade dos casos, do outro lado da linha está um consulente aflito, querendo só o nome de um remedinho para o pâncreas, ou para o fígado, ou para frieira no dedão.

Um pintor, que preferiu não se identificar, disse por fax que não agüenta mais os pedidos de quadros de presente, com promessas de pendurá-los em local de destaque. Também se queixou de que vivem lhe mandando listas de presentes de casamento em que se comunica que se espera dele um ou dois quadros. Chico Simões, o filosófico (escola estóico-pragmática) proprietário lusitano do celebrado boteco Tio Sam – onde o general Figueiredo inaugurou outro dia a mesa presidencial, com um frugal almoço de carne-seca desfiada, tutu, couve picadinha e pudim de leite-, já perdeu a conta dos fregueses que acham pagar uma formalidade desnecessária. Ele pendurou um quadro-negro com os nomes dos que preferiram desaparecer a pagar (“temos saudades de Fulano, Sicrano e Beltrano”, lê-se no quadro, mas o pessoal não se sensibiliza). É a vida, filosofa Chico.

Enfim, fiz grande sucesso. Exceto, é claro, entre a minha clientela de trabalho gratuito, que continua firme. Na semana passada, houve dias em que recebi quatro ou cinco solicitações. Tive que aceitar umas duas, pois era isso ou abater o solicitante a tiros. Bem, é a vida, filosofo eu.

III

Para quem não sabe ou não se recorda, tenho que explicar. Já escrevi aqui duas vezes a respeito de como a mulher de Ruy Barbosa (sei que a norma culta agora manda usar i, mas, se eu grafar “Rui”, corro o risco de ser linchado na Bahia), ao perceber que não teria ocorrido a seu marido estabelecer preço para os serviços que lhe confiavam, chamava o freguês e observava discretamente que ele tinha de pagar pelo trabalho.

– O conselheiro come… – lembrava ela.

O conselheiro, que por sinal passou dos setentinha, façanha digna de nota em sua época, deve ter sempre comido adequadamente. Mas, metaforizando-o para os dias de hoje, está cada vez mais difícil o conselheiro comer. Nós, brasileiros, costumamos conceber o trabalho intelectual ou artístico como algo que devia ser pago pelo governo, ou qualquer coisa assim, ou então não devia ser pago de forma nenhuma. Na verdade, creio mesmo que há uma conspiração em andamento para acabar com o trabalho intelectual, obrigando os nefelibatas que se dedicam a ele a procurar coisas mais sérias para fazer, como construir prédios auto-implosivos na Barra da Tijuca.

Lemos que Bill Gates, dono de 20% da Microsoft, é o homem mais rico do mundo e sua empresa vale mais do que as economias de muitos países. Mas o patrimônio de sua empresa não é físico. É intelectual, está no que produzem as cabeças a que ele paga (bem) para pensarem para ele. Em todo o mundo, sabe-se que o capital do presente é o conhecimento. E se investe prioritariamente em educação, pesquisa e cultura em geral. Mas aqui, não. Aqui, a começar pelos professores de todos os níveis, educação chega a parecer um luxo e os profissionais que se dedicam a ela recebem às vezes salários que seriam considerados insultuosos como esmola no Buraco Negro de Calcutá.

Não passa pela cabeça de ninguém, porque é amigo do dono da padaria, pedir-lhe fornecimento gratuito de pão, bolo ou café. Mas, se a mercadoria não é propriamente física, pagar é um absurdo, pois quem produz essas coisas vive de brisa e, ao exigir retribuição, mostra-se um vil mercenário, que só pensa em grana. Até a pirataria de livros, discos, cassetes, programas de computador e outros é vista com naturalidade e são considerados otários os que, entre comprar o livro e pegar uma xerox baratinha do trecho que lhes interessam, escolhem a primeira opção. E, como se as empresas e os profissionais que produzem tudo isso não precisassem de remuneração, são até rancorosamente acusados de gananciosos. Só que, naturalmente, no dia em que a pirataria for regra geral, ninguém mais vai escrever, compor, desenvolver ou publicar coisa nenhuma, vai ter é que procurar um emprego que lhe dê um dinheirinho.

Posso falar de cadeira, porque, entre cada dez telefonemas, nove são para que eu trabalhe de graça. Não é trabalho, aliás, que trabalho é para mim escrever 40 linhas aqui, 120 acolá, ler 400 a 800 páginas de originais por dia, fazer palestras, dar entrevistas – e isso tudo sob a permanente pressão de não dar uma escorregada, porque, se der, caem de pau? Não sou só eu, naturalmente, é todo mundo mais ou menos de meu ramo. Meu festejado colega Mario Prata, por exemplo, acaba de receber desvanecedor convite para comentar futebol, numa cadeia nacional de televisão. Sim, quanto pagavam? Nada, claro, ficaram até muito decepcionados porque o Mario falou em dinheiro, pensavam que ele era sincero, ao professar amor por futebol.

E mais muitas outras ele me conta, não só dele como de outros padecentes.

Quanto a mim, creio que o repertório atinge os índices olímpicos sem dificuldade. Tenho duas ou três novidades ilustrativas. Uma é um grande banco, que está promovendo um concurso literário de monta, coisa importante mesmo. Aí me telefonaram. Haverá uma comissão julgadora, que lerá os milhares de originais (ou livros, não sei bem) que certamente serão submetidos e fará uma triagem. Sobrarão pouco menos de 40 títulos para três prêmios finais. A atribuição desses três prêmios finais caberá a uma comissão de notáveis, para cuja composição eu estava sendo convidado. Mui honroso, pensei, mas quanto pagam por esse trabalho? Nada, obviamente, onde já se viu? E perdi mais essa chance de participar de uma comissão de notáveis, não agüento mais a frustração.

O segundo exemplo é de um canal de tevê internacional, se não me engano exclusivamente a cabo, que todo mundo conhece. Está fazendo um programa, ou série de programas, sobre os 500 anos de Brasil.

Telefonaram-me (só porque escrevi um livro chamado Viva o Povo Brasileiro, virei brasileirólogo, nunca mais me liberto disso). Eu falo inglês? Falo, sim, senhor. Ah, muito bem, então estou convidado para dar uma entrevista em inglês, a ser exibida no dito programa.

Perguntas sobre o povo brasileiro, explicações, interpretações, essas coisas bobas que qualquer um pode fazer em cinco minutos, com segurança e em inglês. Pois não, pois não, quanto pagam por esse trabalho? Nada, naturalmente, e lá se foi a chance de eu me exibir falando inglês na tevê internacional.

O pior é que tem muita gente que topa e, assim, trabalhadores como o Mario Prata e eu continuam repulsivos mercenários. E também se aceitam “pagamentos simbólicos”, embora o supermercado da esquina se recuse a receber símbolos. Enfim, imagino eu, tudo pela glória. No meu caso, infelizmente, tenho de deixar a glória para depois, o conselheiro persiste em comer. Até mesmo porque descobri que o banco a que pago para guardar meu dinheiro (não digo o nome porque quem acaba sendo preso sou eu) tem um sistema de segurança falho, que permitiu que alguém clonasse meu cartão, soubesse minha senha e me depenasse aos bocadinhos durante meses. Agora tenho de me virar; vou ali, pedir uma cesta básica às Musas.

Do site Alma Carioca.

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